quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Paus-de-cabeleira
O poder mudou de mãos. Mudou para a direita.
A troika serviu apenas para dar a imagem de que havia uma arbitragem externa, o que que sempre apazigua um bocado a contestação.
sábado, 30 de agosto de 2014
Timeline
E se insperadamente surge uma foto que é capaz de reabrir páginas antigas do Grande Livro?
Essa foto leva-te para um capítulo bastante antigo, lá para o terço inicial do volume. Então, dás-te conta de que o capítulo ficou bastante incompleto; de que tem, no final, bastantes páginas em branco, páginas que talvez chegassem (chegavam, de certeza) para escrever um outro livro. Mas apercebes-te também de que as páginas que ficaram em branco já não podem ser escritas agora, tal como não podes reescrever as restantes. O Livro só se escreve uma e definitiva vez. No entanto, podes voltar atrás para ler o que está escrito ou reparar nas páginas em branco. Essa viagem no tempo até é capaz de condicionar o conteúdo das páginas que ainda falta escrever e é, aliás, o assunto da página que neste momento está a ser redigida. É certo que sempre podes tentar reescrever novas páginas daqui para a frente, a fim de substituir as que ficaram em branco. E terás de lembrar-te também de que, por cada página escrita, ficam sempre muitas outras hipotéticas páginas por escrever.
É também essa a razão por que todos os Livros são diferentes, mesmo quando certas páginas parecem estar a contar a mesma história: parecida, mas diferente, porque o narrador é outro e também tem o seu próprio Livro, é bom não esquecer. Nele talvez figures como um capítulo, ou uma simples nota de rodapé. Ou talvez a passagem do tempo tenha feito cair as páginas onde constavas.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Pontos de vista
Se o presente é
objecto de tão opostas interpretações,
também o foi de certeza o passado. Se a História a escrevem os
vencedores, estamos condenados a sentir orgulho daquilo que uns tantos
quiseram. Não nos restará espaço para ver vileza onde outros nos impingem
heroísmo (ou o inverso)?
sexta-feira, 11 de abril de 2014
O Bolo
Nos estados ao
serviço das oligarquias, o dinheiro é retirado aos ricos não amigos e à classe
média em geral, pela via dos impostos. Depois, pela via dos subsídios, esse
dinheiro é canalizado para os amigos. (Uma parte fica na mão dos políticos,
como comissão por serviços prestados e às vezes como prémio por colaboração
relevante.)
Os pobres, os necessitados??? Esses não são tidos nem achados. (Os políticos estão autorizados a distribuir-lhes umas migalhas na véspera das eleições, para que tudo continue a funcionar com o mínimo de sobressalto.)
O resto são minúcias mais ou menos técnicas.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Soneto
"O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor;
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor;
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor;
O país está melho,r o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor."
... mas este Povo cá fora, a multidão de desempregados, de pequenos empresários falidos, de excluídos de olhar perdido e sem futuro, de gente com um pé no estribo do comboio ou na escada do avião que parte — essa gente não entende nada de poesia.
domingo, 19 de janeiro de 2014
A vantagem da mentira
A mentira tem sempre (muito) mais audiência do que a reposição da verdade.
Há uma possível explicação bastante simples: a maioria dos que acreditaram na mentira não se dispõe a dar o braço a torcer, a reconhecer que errou, com receio do vexame.
A exploração desta desonestidade é uma arma política eficaz e muito utilizada, como substituto do trabalho concreto, pelos políticos no poder.
sábado, 11 de janeiro de 2014
As recompensas
Parece haver no sistema político uma lógica perversa que leva a que sejam recompensados com excelentes cargos no exterior dois tipos de figurões:
1) Aqueles políticos que, por excelentes serviços prestados a entidades exteriores (tão excelentes quão daninhos foram internamente, porque os interesses são quase sempre opostos), são premiados por essas mesmas entidades, de forma a manter a confiança e credibilidade do sistema e não necessariamente pela sua competência técnica.
2) Aqueles que, internamente, precisam de ser "chutados" para fora e para cima, por já não terem lugar, por estorvarem alguém, por terem feito a demonstração do princípio de Peter, por se incompatibilizarem com outros poderosos, por saberem demasiado, etc.
Em muitos casos, acedem a cargos sem qualquer relevância em termos de poder efectivo, mas recheados de honrarias e chorudo salário, no fundo reformas douradas que — se aceitam — são o que na realidade buscavam.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
As cadeiras vazias
http://www.ionline.pt/artigos/portugal/rui-rio-quer-acabar-estarmos-suspensos-medidas-no-tc/pag/-1
Não era desacerto. Nas votações da Assembleia, essas cadeiras vazias funcionariam também como abstenções. E dessa maneira a Assembleia representaria efectiva e proporcionalmente o povo que a elegeu e também aquele que preferiu não a eleger.
Algumas decisões ficariam bloqueadas por falta de quórum; mas não é isso o que vem sucedendo ao País?
No actual sistema, os partidos eleitos dividem entre si, na prática, os não-votos do descontentamento e da indiferença, ou seja a abstenção.
O sistema das cadeiras vazias não é nada que não tivesse já sido pensado:
http://www.ionline.pt/iopiniao/democracia-impoe-cadeiras-vazias
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Rascunho
(Rascunho)
Existe uma estratégia…
Mais do que estratégia pensada é uma lógica(que vem mesmo a calhar)
Economicista
Que exclui as pessoas
Considerando-as como meros números
Avaliando-as apenas pela sua produtividade presente
Esquecendo o passado e o futuro
Cultura do lucro imediato, imediatista
A tal que diminui apoios sociais
Que desertifica o interior
Que planta eucaliptos para exportar pasta de papel
Para equilibrar a balança de pagamentos
Nessa balança as pessoas não têm peso
Só pesam do lado errado
Estorvam…
Pior: pessoas são custos, quem dera ter só máquinas
Mas as máquinas são caras
Às vezes as pessoas são mais baratas
E então não há outro remédio senão sustentá-las,
dar-lhes trabalho se calhar e pão quanto baste
Diversão para as acalmar,
Letras só as indispensáveis na medida justa
Carpinteiro quer lá saber de literatura
Sociologia desalinha o nível do pedreiro
…
(continua?)
domingo, 1 de dezembro de 2013
Santos de pau carunchoso
Algum tempo atrás, escrevi por aqui qualquer coisa acerca de não ser especialmente adepto de canonizações (já não me recordo se disse exactamente "canonizações" ou "beatificações", mas, para o caso, tanto faz). Talvez tenha sido pouco explícito.
Naquele dia, pensava especialmente numa figura de um passado não muito distante (século XX), que de herói pouco tinha e a quem a História (a pessoal e a outra) empurrou para a prática de actos que mais tarde passaram por heróicos mas que foram (dizem as testemunhas) movidos por intenções bastante mesquinhas. E esse lado menos heróico (e até sórdido, se quisermos) é escamoteado a todo o custo, sob pena de se perder o efeito, a aura, a glória, o heroísmo... E é assim que, a pouco e pouco, se vai levando ao altar (ou pelo menos ao pedestal) não uma nova Senhora de Fátima, mas um senhor de Viseu (ou dessas bandas, para não ser, uma vez mais, demasiado explícito, pois o cérebro precisa de trabalhar…)
O mundo não se divide entre bons e maus. Por isso, é preferível que não se escamoteie o lado negro e sórdido. Há quem diga que a Verdade não existe, que existem afinal muitas verdades. Também se diz que a História escrevem-na sempre os vencedores, o que não deixa de ser injusto, mesmo que os vencidos fossem umas bestas.
Por outro lado, seria injusto esquecer, por causa das intenções mesquinhas, as felizes consequências.
Também se diz que a maior parte dos santos é de pau.
Muitas vezes carunchoso. Nada que umas boas camadas de tinta colorida não resolvam...
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