sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Ver bem



Os despropósitos, antes de serem deitados fora, é melhor observá-los duas vezes — ou mesmo três.



Pintura de Hieronymus Bosch examinada com raios X.


Mas toma cuidado com o exagero: se examinares demasiado, acabas por encontrar o que lá não foi posto!






 Teste de Rorschach


domingo, 28 de dezembro de 2014

Organogramas



1.       Por mais termos sonantes terminados em "ing" ou "ance" que usem, os tipos que se dedicam predominantemente à actividade financeira não deixam de ser aquilo que sempre foram: usurários.



2.      Fazer disso uma actividade é legal e até necessário, porque os movimentos financeiros são — pelo menos em teoria, porque na prática é outra a história — uma ferramenta capaz de ajudar os capitais acumulados inactivos a tornarem-se produtivos ao serem aplicados noutro lado.



3.      Ultimamente — ajudados pela nossa pacóvia tendência para o deslumbramento (de que a preferência muitas vezes não justificada pelo inglês é apenas um sintoma) — fomos aprendendo a considerar a actividade financeira como sendo a única que merece destaque, a profissão por excelência.



4.      Casualmente — ou talvez não — fomos deixando esquecidos os verdadeiros criadores de riqueza, aqueles que sujam as mãos na indústria ou na agricultura. Hoje é considerado indicador de evolução de um país o ter a sua população maioritariamente empregada nos serviços. Parece uma divisão inocente, mas não é. Ou propositadamente criada ou habilmente aproveitada, essa divisão funciona a favor da imagem daqueles que se dedicam ao "serviço" por excelência, o serviço do dinheiro, rei e senhor incontestado de todos os tempos e de todos os mundos.

 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Megafones



Relativizar expressamente as declarações, eventualmente menos felizes, de uma pessoa bastante idosa pode não ser o mais correcto. Mas há uma forma que não contraria as normas da boa educação: é não dar-lhes demasiado eco, relativizar destacando aquilo que realmente importa.

Mas já sabemos o que importa aos que fazem eco e amplificação...



Paus-de-cabeleira


O poder mudou de mãos. Mudou para a direita.
A troika serviu apenas para dar a imagem de que havia uma arbitragem externa, o que que sempre apazigua um bocado a contestação.



sábado, 30 de agosto de 2014

Timeline


E se insperadamente surge uma foto que é capaz de reabrir páginas antigas do Grande Livro?
Essa foto leva-te para um capítulo bastante antigo, lá para o terço inicial do volume. Então, dás-te conta de que o capítulo ficou bastante incompleto; de que tem, no final, bastantes páginas em branco, páginas que talvez chegassem (chegavam, de certeza) para escrever um outro livro. Mas apercebes-te também de que as páginas que ficaram em branco já não podem ser escritas agora, tal como não podes reescrever as restantes. O Livro só se escreve uma e definitiva vez. No entanto, podes voltar atrás para ler o que está escrito ou reparar nas páginas em branco. Essa viagem no tempo até é capaz de condicionar o conteúdo das páginas que ainda falta escrever e é, aliás, o assunto da página que neste momento está a ser redigida. É certo que sempre podes tentar reescrever novas páginas daqui para a frente, a fim de  substituir as que ficaram em branco. E terás de lembrar-te também de que, por cada página escrita, ficam sempre muitas outras hipotéticas páginas por escrever.
É também essa a razão por que todos os Livros são diferentes, mesmo quando certas páginas parecem estar a contar a mesma história: parecida, mas diferente, porque o narrador é outro e também tem o seu próprio Livro, é bom não esquecer. Nele talvez figures como um capítulo, ou uma simples nota de rodapé. Ou talvez a passagem do tempo tenha feito cair as páginas onde constavas.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Pontos de vista




Se o presente é objecto de tão opostas interpretações,  também o foi de certeza o passado. Se a História a escrevem os vencedores, estamos condenados a sentir orgulho daquilo que uns tantos quiseram. Não nos restará espaço para ver vileza onde outros nos impingem heroísmo (ou o inverso)?



sexta-feira, 11 de abril de 2014

O Bolo




Nos estados ao serviço das oligarquias, o dinheiro é retirado aos ricos não amigos e à classe média em geral, pela via dos impostos. Depois, pela via dos subsídios, esse dinheiro é canalizado para os amigos. (Uma parte fica na mão dos políticos, como comissão por serviços prestados e às vezes como prémio por colaboração relevante.)

Os pobres, os necessitados??? Esses não são tidos nem achados. (Os políticos estão autorizados a distribuir-lhes umas migalhas na véspera das eleições, para que tudo continue a funcionar com o mínimo de sobressalto.)

O resto são minúcias mais ou menos técnicas.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Soneto


Soneto recitado até à exaustão no congresso do PSD:

"O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor;

O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor;

O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor;

O país está melho,r o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor."


... mas este Povo cá fora, a multidão de desempregados, de pequenos empresários falidos, de excluídos de olhar perdido e sem futuro, de gente com um pé no estribo do comboio ou na escada do avião que parte — essa gente não entende nada de poesia.


domingo, 19 de janeiro de 2014

A vantagem da mentira


A mentira tem sempre (muito) mais audiência do que a reposição da verdade.

Há uma possível explicação bastante simples: a maioria dos que acreditaram na mentira não se dispõe a dar o braço a torcer, a reconhecer que errou, com receio do vexame.

A exploração desta desonestidade é uma arma política eficaz e muito utilizada, como substituto do trabalho concreto, pelos políticos no poder.



sábado, 11 de janeiro de 2014

As recompensas






Parece haver no sistema político uma lógica perversa que leva a que sejam recompensados com excelentes cargos no exterior dois tipos de figurões:

1) Aqueles políticos que, por excelentes serviços prestados a entidades exteriores (tão excelentes quão daninhos foram internamente, porque os interesses são quase sempre opostos), são premiados por essas mesmas entidades, de forma a manter a confiança e credibilidade do sistema e não necessariamente pela sua competência técnica.

2) Aqueles que, internamente, precisam de ser "chutados" para fora e para cima, por já não terem lugar, por estorvarem alguém, por terem feito a demonstração do princípio de Peter, por se incompatibilizarem com outros poderosos, por saberem demasiado, etc.

Em muitos casos, acedem a cargos sem qualquer relevância em termos de poder efectivo, mas recheados de honrarias e chorudo salário, no fundo reformas douradas que — se aceitam — são o que na realidade buscavam.