sexta-feira, 11 de abril de 2014

O Bolo




Nos estados ao serviço das oligarquias, o dinheiro é retirado aos ricos não amigos e à classe média em geral, pela via dos impostos. Depois, pela via dos subsídios, esse dinheiro é canalizado para os amigos. (Uma parte fica na mão dos políticos, como comissão por serviços prestados e às vezes como prémio por colaboração relevante.)

Os pobres, os necessitados??? Esses não são tidos nem achados. (Os políticos estão autorizados a distribuir-lhes umas migalhas na véspera das eleições, para que tudo continue a funcionar com o mínimo de sobressalto.)

O resto são minúcias mais ou menos técnicas.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Soneto


Soneto recitado até à exaustão no congresso do PSD:

"O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor;

O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor;

O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor;

O país está melho,r o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor
O país está melhor, o país está melhor."


... mas este Povo cá fora, a multidão de desempregados, de pequenos empresários falidos, de excluídos de olhar perdido e sem futuro, de gente com um pé no estribo do comboio ou na escada do avião que parte — essa gente não entende nada de poesia.


domingo, 19 de janeiro de 2014

A vantagem da mentira


A mentira tem sempre (muito) mais audiência do que a reposição da verdade.

Há uma possível explicação bastante simples: a maioria dos que acreditaram na mentira não se dispõe a dar o braço a torcer, a reconhecer que errou, com receio do vexame.

A exploração desta desonestidade é uma arma política eficaz e muito utilizada, como substituto do trabalho concreto, pelos políticos no poder.



sábado, 11 de janeiro de 2014

As recompensas






Parece haver no sistema político uma lógica perversa que leva a que sejam recompensados com excelentes cargos no exterior dois tipos de figurões:

1) Aqueles políticos que, por excelentes serviços prestados a entidades exteriores (tão excelentes quão daninhos foram internamente, porque os interesses são quase sempre opostos), são premiados por essas mesmas entidades, de forma a manter a confiança e credibilidade do sistema e não necessariamente pela sua competência técnica.

2) Aqueles que, internamente, precisam de ser "chutados" para fora e para cima, por já não terem lugar, por estorvarem alguém, por terem feito a demonstração do princípio de Peter, por se incompatibilizarem com outros poderosos, por saberem demasiado, etc.

Em muitos casos, acedem a cargos sem qualquer relevância em termos de poder efectivo, mas recheados de honrarias e chorudo salário, no fundo reformas douradas que — se aceitam — são o que na realidade buscavam.





quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

As cadeiras vazias




"E se a abstenção elegesse cadeiras vazias na Assembleia da República?" — perguntava Rui Rio.

http://www.ionline.pt/artigos/portugal/rui-rio-quer-acabar-estarmos-suspensos-medidas-no-tc/pag/-1


Não era desacerto. Nas votações da Assembleia, essas cadeiras vazias funcionariam também como abstenções. E dessa maneira a Assembleia representaria efectiva e proporcionalmente o povo que a elegeu e também aquele que preferiu não a eleger.

Algumas decisões ficariam bloqueadas por falta de quórum; mas não é isso o que vem sucedendo ao País?

No actual sistema, os partidos eleitos dividem entre si, na prática, os não-votos do descontentamento e da indiferença, ou seja a abstenção.

O sistema das cadeiras vazias não é nada que não tivesse já sido pensado:

http://www.ionline.pt/iopiniao/democracia-impoe-cadeiras-vazias


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Rascunho



(Rascunho)


Existe uma estratégia…
Mais do que estratégia pensada é uma lógica
(que vem mesmo a calhar)
Economicista
Que exclui as pessoas
Considerando-as como meros números
Avaliando-as apenas pela sua produtividade presente
Esquecendo o passado e o futuro
Cultura do lucro imediato, imediatista
A tal que diminui apoios sociais
Que desertifica o interior
Que planta eucaliptos para exportar pasta de papel
Para equilibrar a balança de pagamentos
Nessa balança as pessoas não têm peso
Só pesam do lado errado
Estorvam…
Pior: pessoas são custos, quem dera ter só máquinas
Mas as máquinas são caras
Às vezes as pessoas são mais baratas
E então não há outro remédio senão sustentá-las,
dar-lhes trabalho se calhar e pão quanto baste
Diversão para as acalmar,
Letras só as indispensáveis na medida justa
Carpinteiro quer lá saber de literatura
Sociologia desalinha o nível do pedreiro


(continua?)



domingo, 1 de dezembro de 2013

Santos de pau carunchoso


Algum tempo atrás, escrevi por aqui qualquer coisa acerca de não ser especialmente adepto de canonizações (já não me recordo se disse exactamente "canonizações" ou "beatificações", mas, para o caso, tanto faz). Talvez tenha sido pouco explícito. 

Naquele dia, pensava especialmente numa figura de um passado não muito distante (século XX), que de herói pouco  tinha e a quem a História (a pessoal e a outra) empurrou para a prática de actos que mais tarde passaram por heróicos mas que foram (dizem as testemunhas) movidos por intenções bastante mesquinhas. E esse lado menos heróico (e até sórdido, se quisermos) é escamoteado a todo o custo, sob pena de se perder o efeito, a aura, a glória, o heroísmo... E é assim que, a pouco e pouco, se vai levando ao altar (ou pelo menos ao pedestal) não uma nova Senhora de Fátima, mas um senhor de Viseu (ou dessas bandas, para não ser, uma vez mais, demasiado explícito, pois o cérebro precisa de trabalhar…)

O mundo não se divide entre bons e maus. Por isso, é preferível que não se escamoteie o lado negro e sórdido. Há quem diga que a Verdade não existe, que existem afinal muitas verdades. Também se diz que a História escrevem-na sempre os vencedores, o que não deixa de ser injusto, mesmo que os vencidos fossem umas bestas.

Por outro lado, seria injusto esquecer, por causa das intenções mesquinhas, as felizes consequências.

Também se diz que a maior parte dos santos é de pau.
Muitas vezes carunchoso. Nada que umas boas camadas de tinta colorida não resolvam...



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Dar



«Siempre me acuerdo del Evangelio: “Al que tiene le será añadido; al que no tiene le será negado”. Cuando eres tan pobre que miras los escaparates de las librerías como un hambriento los de los restaurantes nadie te regalará ningún libro. Cuando no lo necesitas te abruman con ellos.»

http://xn--antoniomuozmolina-nxb.es/2013/11/tantos-libros/



"Pois eu vos digo que a qualquer que tiver ser-lhe-á dado, mas ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado."
(Lucas 19,26)

No Evangelho, o sentido da parábola é outro bem diferente (tem pouco a ver, nota-se que o escritor anda por outras leituras), mas siga-se, para este efeito, a citação à letra...



Por que razão as pessoas ricas ou menos necessitadas tendem a receber mais prendas, ofertas, etc. do que outras mais pobres e necessitadas?

Não há uma razão única para o explicar (os factos que observamos têm geralmente causas múltiplas e quase sempre complexas). Oferecer algo a alguém é um acto que pode ter motivações bastante díspares. Quando se trata de caridade, o acto vai, naturalmente, dirigido a pessoas mais pobres. Os ricos não precisam de caridade.

As entregas feitas a pobres a título de caridade ou solidariedade não se enquadram nas categorias de prendas, brindes, ofertas. São ajudas.

Ninguém dá brindes aos pobres. Os brindes podem ter diversas motivações, sendo algumas delas de natureza comercial (merchandising, uma acção de marketing) e têm como objectivo chamar a atenção das pessoas para um bem comercial ou mercadoria, com o objectivo final de que o comprem.

Não tendo os pobres poder de compra, não tem sentido fazer acções de promoção dirigidas (direccionadas?) a eles. Quando os pobres recebem os objectos utilizados nas acções de marketing, esses objectos ou brindes já não estão a cumprir a função para a qual foram criados, a não ser quando ele, pobre, funciona como pretexto para a exibição do acto (sendo o pobre então mero instrumento de acções dirigidas a outros).

A oferta feita aos pobres pode não ser desinteressada. O gesto é para ser visto pela sociedade, de forma que o ofertante possa colher benefícios em termos de imagem junto do público (banquetes e feiras de beneficência, por exemplo, embora sempre haja pessoas que preferem ficar anónimas).

Há, contudo, casos em que os pobres podem obter ofertas com intenção que se pode considerar, em grande parte, de natureza comercial e não como dádiva altruísta e desinteressada. A oferta pode destinar-se a "comprar" a sua cooperação, em actos ou atitudes de que o ofertante espera obter benefícios (a moeda dada ao arrumador de carros não anda muito longe disso, embora aqui já exista uma outra componente, a de extorsão, pois a moeda serve também para evitar a ameaça de aparecerem uns riscos no carro, um pneu furado ou coisa ainda pior; mas isso já é outro tema).

Os livros enviados ao escritor são merchandising, brindes promocionais. Quem os envia espera que ele os leia e venha depois a falar ou escrever sobre eles, conferindo-lhes prestígio e, por acréscimo, valor comercial.

Quem dá, geralmente espera algo em troca. Por isso, dá-se mais a quem tem algo para dar. É injusto, mas é assim. Ou, pondo a frase ao contrário: É assim, mas é injusto.


(Claro que este não era mesmo o assunto da Parábola da Dez Moedas).








terça-feira, 26 de novembro de 2013

E se... ?





E se o fascismo viesse desta vez disfarçado de neo-liberalismo?
Ou se este se dispusesse a abrir-lhe a porta?

Um fascismo de novo tipo, que dispensa a liturgia das grandes paradas e manifestações oficiais, custosas e ostensivas mas facilmente substituíveis pelo hábil domínio — exercido na sombra e à distância — da contra-informação  e da desinformação, tornado hoje possível pelas novas tecnologias e contando, até, com a colaboração nem sempre involuntária dos vários Big Brothers em serviço. 

Um fascismo que dispense de certa forma o culto da personalidade, substituindo-o pelo culto a uma entidade suprema — e nisso supre até as necessidades espirituais de muitos ateus —: o deus dinheiro, o supremo valor, a medida de todas as coisas, inalcançável, como qualquer divindade que se preze. Um deus que a todos possui, mas só por uns poucos é possuído.



segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Problema acrescido



«««  "Os Santos têm uma grande tradição em Portugal", apesar que o Dia já estava "um bocadinho desvirtuado", porque as pessoas aproveitavam o feriado para lembrar os defuntos.  »»» — disse D. Manuel Clemente.

Mas eu acho que ele se esqueceu de um pormenor importante (sim, há pormenores que são importantes): é que parte das pessoas aproveita o dia de Santos para ir deitar no lixo as máscaras de Halloween (os mais conscienciosos aproveitam para as guardar no armário, evitando a despesa no ano seguinte…).
Também acho que uma pessoa actualizada e moderna, em princípio, não deveria esquecer-se disto.
Disse ainda que o desemprego é um problema acrescido para as famílias. E disse uma grande verdade. "Problema acrescido", assim como que "en passant", parecendo que quase se esquecia de o referir. 
Cá por mim, podia perfeitamente ter dito "drama", em vez de "problema acrescido". Os dramas não precisam de ser acrescidos e teria poupado no vocabulário.
Não entendi muito bem foi aquilo da "solidariedade geral e particular". A solidariedade particular não me custa a entender. Todas as pessoas são livres de ser solidárias e têm até o dever moral de o ser. Mas a "solidariedade geral" é que me deixa às voltas. Para ser geral, tem de ser de todos, tem de ser comum, o que supõe que é organizada. Tudo quanto é geral e comum, se não for organizado, resulta numa grande confusão, pelo menos. A mim, parece-me que a melhor instituição para coordenar aquilo que é geral e comum é o Estado. Mas eu acho que  Sua Eminência (tratamento que já antecipo, pois suponho que a ela vai ter direito brevemente) não era nisso que estava exactamente a pensar. Palpita-me que não.
Também fiquei com a impressão (mas também só li o artigo, não ouvi as declarações) de que ele foi muito cauteloso nas recomendações de carácter social e, ao mesmo tempo, bastante incisivo nas declarações de carácter político (ler no artigo). Atendendo ao teor das mesmas, até fiquei a matutar em quem poderia ele estar ao mesmo tempo a apoiar e também a recear.
Mas houve uma coisa que me deixou tranquilo: a tradição não se perde, está bem entregue.


http://www.noticiasaominuto.com/pais/125655/portugueses-tem-de-ser-mais-modestos-nos-gastos#.UneKSpRdfq0