sábado, 2 de maio de 2009

Os Aston Martin e a crise







Na segunda-feira, cruzei-me na A-23, ali por alturas do Fundão, com três camiões verdes, ostentando o emblema da Aston Martin.

É lícito presumir que vinham entregar carros da marca preferida de mister Bond, James Bond (o antigo…).

Não se tratava desses vulgares porta-carros barulhentos, capazes de transportar uma dúzia de modelos utilitários, ou umas dez berlinas médias. Eram três camiões fechados, três contentores reluzentes, transportando dois a quatro carros cada um, segundo os meus cálculos.

Tais viaturas de excepção bem merecem um transporte especial. São máquinas maravilhosas, que merecem viajar bem acondicionadas, ao abrigo da chuva e da poeira, e até a coberto de olhares indiscretos, curiosos de saber que modelo, que cor, se é descapotável, se é coupé…

Para mim, quero um, numa certa tonalidade de verde metalizado, fechado. Não é que não goste dos descapotáveis. E até admito, se tiver de ser, receber um desses em vez do coupé. Mas, podendo escolher, opto pelo primeiro. Ou então, se houver, tragam-me um convertível com capota metálica. Assim, além do prazer de viajar com os cabelos (ou a semi-careca) ao vento, posso ter um carro fechado sem aquela inestética (há quem discorde) lona preta.

Ora bem, então viriam ali entre seis a doze Aston Martin. De uma só vez, é obra! Cheira-me que a crise não atingiu a todos. Ou então, na pior das hipóteses, são encomendas já antigas. A esta hora, estão os empresários e os futebolistas (os políticos não podem) a arrancar os cabelos, sem saber como vão arranjar dinheiro para a gasolina (os bólides já estão pagos, no acto da encomenda. É assim que tratam os ricos. Vendem-lhes os carros, mas nada de prestações. Pagamento adiantado, milord, please!).

Mas deixemo-nos de conjecturas.

Eu já ficaria satisfeito se me pudessem garantir, com toda a certeza deste mundo e do outro, que nenhum daqueles carros foi comprado com dinheiro mal ganho, ou seja, daquele que, no sítio de onde saiu, deixou os tais buracos sem fundo, os tais que até eu tenho de suar para voltar a encher.

Garantam-me lá isso, se fazem favor.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A propósito da homenagem a uma múmia



http://botaacima.blogs.sapo.pt/arquivo/botas.jpg
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Parece ser quase geral a tendência para sentir a nostalgia de um tempo passado, em que tudo foi melhor do que agora.
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Antigamente é que era bom.
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Nunca se viu uma coisa assim.
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Por este caminho, não sei onde vamos parar.
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Até a meteorologia se vê confrontada com esta situação, apesar de as estatísticas, comprovarem que está tudo mais ou menos na mesma. É certo que o chamado aquecimento global está apoiado por estudos válidos, mas a propaganda e as campanhas (bem intencionadas, neste caso) superam em espalhafato os efeitos que possam vir a ter sobre os hábitos de consumo da humanidade.
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E escamoteia-se sempre a opinião dos geólogos, esses seres anónimos, que sabem muito bem que a temperatura da Terra tem ciclos, que o nível do mar não é constante, nem a proporção entre as quantidades de água no estado líquido e no estado sólido sobre a Terra. A razão para isso é muito simples: é praticamente impossível ao ser humano, enquanto indivíduo e geração, produzir efeitos sobre o planeta numa escala geológica. Somos pequenos de mais para isso e estamos por cá pouquíssimo tempo.
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Mas a opinião pública, irmã mais velha da consciência global, faz-se hoje nos media, perseguindo interesses comerciais óbvios. Para conseguir o interesse das pessoas, captar a sua atenção para o spot que tudo financia, é preciso alimentar-lhes um bocadinho o ego, fazer-lhes crer que contam, que os seus actos produzem efeitos visíveis e importantes sobre o presente e o futuro. Daí o anonimato dos cientistas que estudam matérias pouco manipuláveis.
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Daí também a escassa programação sobre matérias capazes de levar as pessoas a ter uma ideia de si próprias à escala do Universo. Não convém que adquiram demasiada consciência. Por outro lado, o telelixo entretém (e, para além disso, os reality shows e o futebol servem de escape às tensões).
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Já noutra perspectiva, apesar de todas as luminosas esperanças e promessas das últimas décadas, as pessoas têm-se visto, na sua maioria, confrontadas com uma realidade triste e cinzenta, coroada agora pela recente crise.
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Durante todos estes anos, nos bastidores (não subterrâneos, como conviria num filme de terror, mas muitos pisos acima do chão, bem luminosos e arejados), os parasitas brilhantes de sempre trataram de nos ir comendo por dentro, contando para isso, através de engenhosos processos de persuasão, com o nosso próprio contributo voluntário.
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A desilusão é generalizada. Apenas escapam aqueles que a produzem, cujos olhos só procuram ver, e conseguem, o brilho do metal sonante.
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Mas não se podem culpar as pessoas da sua própria desilusão. É preciso encontrar bodes expiatórios. Os mais óbvios são os detentores dos mais altos cargos políticos, supostamente detentores do poder absoluto de nos fazer ricos e felizes, poder esse que só não usam porque não querem. Fraco poder possui essa gente e sabem-no. Por isso, quando podem, tratam de ir garantindo o seu sustento e futuro, bem como os de quem os acompanha. De poder, têm só o começo. O verdadeiro poder, vão alcançá-lo se conseguirem retirar-se para o outro lado. Sabemos de exemplos disso.
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Nesse panorama, como não ir ao passado desenterrar as múmias, retirar-lhe o pó, aplicar-lhes umas cores, montar um circo com elas, uma exposição, um concurso, uma homenagem, e mostrar à gente que os dias de hoje só são tão maus porque já não há pessoas como as que foram aquelas mesmas múmias?!
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Afinal a saudade é tão portuguesa.
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(agora quanto à tal homenagem, parece que ela é feita por uns idiotas que, sem o saberem, estão a prestar um grande favor àqueles que realmente teriam motivos para a fazer. E não são os mais óbvios…)
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Comentários:

# Tempestade said on April 24, 2009 11:17 AM:
Caro camionista
Sempre foi assim e será assim durante mais 100 anos. Nunca estamos bem com o que temos. Achamos sempre que o que era bom já lá vai...
Abraços
Tempestade
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# camionista said on April 24, 2009 11:29 AM:
Pois sim, mas o problema é que querem aproveitar-se dessa nossa tendência saudosista para nos manterem quietinhos, consumidores e, se possível, adeptos do antigamente (desde que isso ajude ao negócio).
Tempestade, obrigado pela visita e um abraço
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# camionista said on April 24, 2009 11:36 AM:
Consumidores, sim, com todo o prazer, desde que passem para cá o cacau.
Se querem estimular a economia, dêem dinheiro aos consumidores (que a ele tenham direito, obviamente) em vez de ajudar os banqueiros ladrões e seus altos funcionários com contratos blindados.
Então, a malta desata a comprar e os negócios vão para  frente. Mas se calhar não é assim. Dinheiro na nossa mão provoca inflacção.
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# cybertruck said on April 24, 2009 7:33 PM:
Os dias do calendário são livres, qualquer um pode dispor deles para celebrar o que muito bem entender.
Mas celebrar o ditador no próprio dia consagrado à comemoração da deposição do regime que ele encabeçou, é uma provocação, uma ideia que só pode ter saído da cabeça de porcos fascistas (para não me servir de mais expressões) que têm todo o direito de o ser.
Afinal, esse dia serviu, pelo menos, para permitir a liberdade de expressão. Dá-lhes, a eles, aquilo que sempre negaram aos outros.
Porcos fascistas!
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# camionista said on April 24, 2009 7:52 PM:
Têm todo o direito de dar o nome do Dr. Salazar a um largo da sua terra natal, ou de outro sítio  qualquer. Até nem me oporia a  que a ponte agora chamada "25 de Abril" regressasse à sua designação inicial. Haveria  até uma certa justiça nisso.
O que me parece de grande "sujidade" mental é a ideia de se fazerem essas coisas no próprio dia em que se comemora a revolução que depôs o ignominioso regime que o fulano encabeçou durante 40 negros anos.
Têm todo o direito de o fazer. A liberdade de expressão, afinal, é uma das conquistas de Abril que ainda permanece, e suponho que muito contestada por aqueles que agora dela se servem.
Mas trata-se de uma provocação e como tal tem que ser entendida.
"Porcos fascistas" está bem dito.
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terça-feira, 10 de março de 2009

Um paraíso à beira-rio




























































As imagens referem-se à Praia Fluvial do Alamal (Gavião), situada no rio Tejo, albufeira da Barragem de Belver, logo abaixo da referida vila, na margem oposta.
Existem também fotos da vila de Belver, e do seu castelo, tomadas de cima da ponte sobre o Tejo, ou das suas imediações.
O acesso à Praia Fluvial faz-se a partir da A-23 (saída de Domingos da Vinha) em direcção a Gavião, passando dentro da vila de Belver. Encontra-se devidamente sinalizado logo à saída da Ponte.
A partir de Gavião, pela EN118, encontra-se também devidamente sinalizado junto a esta vila.


Comentários:

realidade de um sonho disse a Sun, 19 Apr 2009 22:54:48 GMT:
Visitamos Hoje e adoramos!

Luiz disse a Mon, 20 Apr 2009 11:45:58 GMT:
E, se calhar, o autor destas fotos andava por lá, em busca de novos ângulos e perspectivas...

rsss:)))

realidade de um sonho disse a Mon, 20 Apr 2009 14:42:40 GMT:
o meu cunhado é de lá , tem lá familia, com toda a certeza vou lá voltar!!!! o sogro da minha irmã tá a recontruir lá uma casa!


domingo, 1 de março de 2009

Da influência do subsídio de desemprego no atraso das refeições (uma forma de ver o problema)

 

              

               Imagem daqui : http://tinyurl.com/cnms3a

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Esta semana estive, em trabalho, numa cidade costeira cujo nome me abstenho de mencionar, para que não sirva de pretexto a quaisquer evocações.

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Enquanto esperava a minha vez, chegou a hora de almoço. Fiz, então, aquilo que é habitual fazer-se nessa altura.

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O restaurante está situado à beira da estrada, mesmo ao entrar na zona industrial. Já é meio caminho andado para ter alguns clientes.

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E foi isso mesmo que aconteceu. A sala de refeições não estava cheia, mas é bastante grande e estava bem composta. Estavam muitos clientes sentados em mesas ainda por levantar, com a loiça do comensal anterior à sua frente.

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Sentei-me, e aguardei a minha vez de ser atendido. Demorou. Demorou mesmo muito. Notei que o pessoal estava reduzido. Faltava pelo menos uma empregada, talvez duas. Serviam à mesa apenas o dono da casa e um empregado. Era visível que custavam a dar conta do recado.

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O atraso foi de tal ordem que, quando finalmente me atenderam, escolhi, não o prato que mais me agradava, mas aquele que me pareceu mais rápido de servir, algo de “tirar do tacho”, no caso uma dobrada.

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E foi nessa altura que o dono da casa, talvez por se ter dado conta das minhas caretas de impaciência, me explicou o motivo dos problemas.

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Que não se conseguia contratar pessoal, dizia ele. Uma das empregadas despedira-se. O homem pagava-lhe algo como 500 euros por mês. Como o valor mínimo do subsídio de desemprego não anda muito longe disso, a senhora disse que, assim, preferia ficar em casa.

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A situação que eu acabei de relatar não tem nada de novo. Quem não ouviu já falar dela?

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Mas configura-se aqui a presença de um grande número de problemas, uns mais relevantes que outros. E não conseguiremos estar de acordo quanto a isso. Como sempre, e como dizem os espanhóis, “según se mire…”

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Cada um tira as suas conclusões. E nem sequer me atrevo a dizer se o salário era baixo, se o subsídio não-sei-quê, se a vontade de trabalhar não-sei-quantos, se a crise, se o Governo…

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Pilarete




Eis a imagem original:

Para fazer justiça ao dono da propriedade:
(Cerealpor, Alegrete, Portalegre)
Na zona de Portalegre, existem muitos portões de propriedades com pilaretes semelhentes a este.




Nos últimos anos, tem havido, no concelho de Portalegre, uma grande preocupação com a traça das construções, tendendo sempre para uma aproximação a um estilo tradicional da região. Talvez isso tenha conduzido a alguma monotonia, mas, por outro lado, evita a proliferação de desenhos estapafúrdios que, ainda não há muitos anos, eram a nota dominante em tudo quanto era aldeia, vila ou cidade.
(As "maisons" até ficam optimamente em França!)


Cores públicas, privadas cinzas


                
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Não tenho nada contra o cinzento. Uma foto a preto e branco, com o seu jogo de contrastes, sem a distracção da cor, até pode ser, pese embora a inexactidão cromática, uma boa maneira de representar a realidade (ou aspectos dela).
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Embora o possa parecer, não estou a falar de fotografia. Comecei por referir o cinzento, porque esse adjectivo provém de “cinza”, Lat.cinis.
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Do que já não gosto tanto é destas, em nenhum dos seus significados.
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De cinzas é também o dia de amanhã, segundo a tradição.
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A quarta-feira de cinzas é o símbolo da hipocrisia.
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Bem “lhes” gostaria ter-nos sempre de quaresma. Mas isso não é possível. Nascemos pagãos (temos até de remediar isso através do baptismo, lembram-se?). Gostamos, naturalmente, de folia. O colorido do Carnaval.
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Temos então esse (este) dia de folga. Dia de tirar a barriga de misérias, de abusar do pecado, já a pensar na penitência que aí vem.
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É aí que começa a hipocrisia. Quem instituiu este curto interregno no reino das sombras fê-lo, não a pensar em nós, mas em si próprio. Para legitimar, com o dia de hoje, a eterna orgia/folia em que, portas adentro, vivem os impositores de certa moral.
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Roubo continuado, durante a tarde


Tudo se passou junto às águas calmas do Rio Tejo.
Passando junto a uma mansão de ar sinistro…
… vi um casal entretido a tratar da vinha, alheio às peripécias que ocorriam à sua volta.
A mansão situa-se junto à antiga estação dos comboios.
Era a hora errada (relógio parado) mas o local era certo.
Na chaminé da sinistra mansão, um casal de cegonhas afadigava-se na contrução do ninho.
Ali perto, na chaminé da antiga fábrica de pimentão, outro casal competia na tarefa com o primeiro.
Ei-las aqui recolhendo os materiais…
…num ninho próximo, presentemente desocupado.
A recolha prossegue.
Uma das aplicadas trabalhadoras, dirigindo-se ao local de recolha.
E agora regressando à obra.
Ali perto, num pilar das ruínas da fábrica, mesmo ao lado da via férrea, uma rola toma nota do que se passa, e vai comentando em voz alta.
Entretanto, passa o comboio que, com um apito estridente, põe final à história.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

J.

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Esta é, num brevíssimo resumo, a história de uma grande mulher.
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A grandeza não se mede pela estatura, nem pela fama ou poder. A grandeza é dada, a cada pessoa, pela sua capacidade de tornar melhores aqueles que tiveram a oportunidade de a conhecer. É grande quem cria mais do que aquilo que destrói.
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Veio da planície, fugindo de uma paixão que acabou mal, na certeza de encontrar a segurança do cumprimento de uma promessa. O recomeçar em confiança, uma vida difícil sem dias de descanso. Veio no comboio, ao encontro de quem apenas lhe prometera isso, e não era pouco.
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Pouco tempo depois, casaram. A actividade económica do casal, constava de um táxi, bomba de combustível, café e pensão, venda de lotarias, agência de documentação. Havia empregados, nalguns casos com laços familiares.
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Não houve descendência. A esta mulher, os filhos que a Natureza lhe negou, vieram-lhe multiplicados no enorme número de afilhados que teve, muitos dos quais acolheu e literalmente criou.
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O homem, ainda bastante novo, morreu subitamente. A ela, ficou-lhe nas mãos um encargo imenso. A situação económica não era a melhor. Quem tudo vai distribuindo, sem nada guardar para si, pode um dia ficar numa situação delicada. Foi gerindo tudo como pôde, ainda durante bastantes anos, até finalmente se retirar de parte das actividades. Os tempos foram mudando, outros empresários foram surgindo, com novos planos e ideias.
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Entretanto, morreu-lhe também uma ajudante preciosa, a irmã, com cinco filhos pequenos. Foi ela quem acabou por criá-los.
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Ficou com uma pequena pensão, na casa para onde foi morar. Alugava quartos e fornecia refeições a trabalhadores, estudantes, professores em início de carreira. Manteve a agência de documentação. Era essa a situação quando a conheci. Eu fui um dos seus hóspedes. Em certos dias, era um corropio de gente a tratar de documentos, geralmente coisas relacionadas com as cartas de condução e respectiva renovação.
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Era uma cozinheira excepcional, ajudada por alguma afilhada que já há muito a acompanhava, fazendo a felicidade dos estômagos dos hóspedes. Praticava uns preços extremamente moderados, compatíveis com as possibilidades dos pagantes, mas não com o amealhar de dinheiro por parte dela.
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Tratava-se de uma pessoa com uma capacidade de negociação e persuasão extraordinárias, intervindo frequentemente, a pedido dos interessados, na resolução de problemas pessoais delicados. Tinha a capacidade de conseguir conhecer a vida das pessoas sem nunca parecer que se estava a intrometer, tal o grau de confiança que inspirava. Sabia aconselhar e emitir, quando achava que devia, opiniões nem sempre fáceis de aceitar se viessem de outra pessoa. Usava de uma franqueza desconcertante e não era possível contrariá-la, ainda que se quisesse, pois tudo quanto dizia tinha sido seriamente pensado.
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Já para o final da vida, abandonou todas as actividades, passando a viver de uma pequena reforma.
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Depois da sua morte, soube que tinha deixado uma lista com os nomes das pessoas que ela desejaria que fossem informadas do facto. O meu nome constava dessa lista, e posso dizer que considerei e considero isso uma honra enorme. Entretanto, os familiares não cumpriram essa sua vontade, alegando não querer incomodar os nomeados, tendo, no meu caso, pedido desculpa por essa omissão.
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Jaz no cemitério da localidade para onde veio viver, longe da sua cidade natal, cujo nome compartilhava.
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domingo, 18 de maio de 2008

duas semanas atribuladas





Diz-se que há dias em que não se pode sair de casa.
Eu, que sou um exagerado, vou ainda mais além. Não me contento com os dias. Quero mais. Quero semanas. Por isso rectifico, e afirmo, peremptoriamente:
Há semanas em que não se deve sair de casa!
A semana passada, foi uma dessas.
Sair de casa não foi um erro. Foi, isso sim, uma tremenda falta de sorte. Esqueci-me de consultar o horóscopo, foi o que foi. Isso, sim, é que foi um erro tremendo. E nem precisava de comprar o jornal. Bastava abrir umas das ‘milhentas’ páginas da Internet dedicadas ao assunto. Devia ter feito menos ‘FreeCells’.
E, pior que isso, é o facto de já ter havido prenúncios negativos na semana anterior.
Estava eu, salvo erro, na zona de Vila Franca de Xira, ou da Arruda dos Vinhos. Isso mesmo! Na rotunda que se segue à saída da A10 para Arruda dos Vinhos, havia uma espécie de ‘operação stop’ da Brigada de Trânsito (acho que já mudou de nome, mas eu faço justiça à sua antiga e apropriada designação).
Passei, sem que ninguém me mandasse parar, nem me desse grande importância Fui onde tinha de ir, fiz o meu trabalho e voltei. Também desta vez não me mandaram parar.
“Mas então o que é isto?!” – questionei eu – “Então, já não se liga importância aos camionistas?! É uma desconsideração…” Não era. Simplesmente, era sorte a mais.
Tendo em conta que, no Universo, tudo tende para o equilíbrio, eu devia esperar que funcionasse o mecanismo de compensação. E já tinha começado a funcionar. O meu chefe de serviço tinha-me dado as instruções: Iria carregar, segunda-feira, na zona de Valladolid, em vez de carregar no sábado em Portugal. Bem… se tinha de ser…
E lá segui para a morada indicada. Parei em Vilar Formoso, para fazer as compras do costume.
Rodava tranquilamente, perto de Salamanca, quando um desagradável aviso me apareceu nos instrumentos. Algo relacionado com os travões. Experimentei o respectivo funcionamento e, na falta de quaisquer sintomas estranhos, supus tratar-se do desgaste das ‘pastilhas’. Teriam de ser substituídas quando regressasse. De qualquer forma, na primeira paragem iria certificar-me.
Mas não fiquei totalmente tranquilo. Por isso, parei mesmo, e fui ver o que se passava. A coisa era muito pior: tinha ‘gripado’ os rolamentos da roda da frente do lado direito. Estava bastante quente, mas não fumegava. Foi por isso que não me apercebi. Teria visto o fumo pelo retrovisor.
Foi inesperado, por não ter havido nenhuns sintomas na direcção, nem ruídos estranhos, nada. Consultei o mecânico da empresa. Combinámos que eu iria, muito devagar, para uma estação de serviço, uns dois quilómetros mais adiante. Não podia ficar na auto-estrada, a menos que fosse de todo impossível sair dali.

… … …

Aqui, seguir-se-ia uma pormenorizada, mas fastidiosa, descrição das peripécias ocorridas durante o complicado processo de reparação. Mas resume-se no seguinte:
Veio o mecânico, de Portugal, três vezes. E não foram suficientes só por si, pois tivemos de ir, sexta-feira à tarde, a Guadalajara, buscar a última peça que faltava. Ou seja, a reparação durou uma semana, terminando às duas da madrugada, de sexta para sábado.
Mais valia que tivessem recorrido ao sistema de assistência em viagem. Ali mesmo em Salamanca, a menos de 20km, estava um representante da marca.
Forretices que se pagam caro!...

Uma semana inteira…´
O que é preciso é ter paciência.

… … …

Entretanto, acabo de verificar que a aplicação do plural (semanas), que fiz no início deste texto, foi mais do que premonitória.
Trocando por miúdos:
Fui então carregar o camião. A carga era um pouco diferente do que eu esperava. Era a granel, não deixava de ser um subproduto da exploração florestal, mas era outro diferente do habitual. Concretamente tratava-se das ‘aletas’ das pinhas dos pinheiros mansos, aproveitadas depois de retirados os pinhões.
Perguntar-se-á para que serve tal coisa. Em última instância, até serviria como combustível, mas não é o caso. Tem a mesma utilização que a casca dos pinheiros, que se aproveita do descasque dos toros, nas serrações. Depois de algum tratamento (separação ou calibragem) estes produtos são vendidos, a granel ou embalados, como matéria orgânica para adicionar aos terrenos agrícolas ou jardins, sendo que, neste último caso, também se usam com finalidades decorativas ou de isolamento.
A dificuldade estava na operação de descarga. O material, bastante escorregadio, tende a fazer enorme pressão no momento de abrir as cintas de fixação da lona. Só foi possível abrir o camião depois de algum esforço de imaginação (e também físico). Demorou imenso tempo.
Dirigi-me depois ao local da carga de retorno, a mais de cem quilómetros dali. A distância até nem é grande. Mas a carga era para o dia seguinte.
A coisa começava a complicar-se. Ficar para o dia seguinte traduz-se num atraso considerável. Estava a ficar em causa a possibilidade de descarregar na mesma semana. Mas ainda era possível.
Iniciou-se então a carga, pelas seis da manhã (cinco, pela hora portuguesa). Tratava-se de sacos (big bags) com um pó industrial, de 500kg cada um, sobre paletes.
Quando estavam carregados não mais de quatro sacos, apareceu o responsável pelas cargas. Pôs-se a observar e fez questão de achar que o camião não tinha as condições para transportar a carga em segurança para Portugal. Tinha, segundo ele, um número insuficiente de barras laterais de contenção.
Fizeram-se algumas chamadas: quem se responsabiliza pelos eventuais danos, quem não… Três horas depois, veio a ordem: Desistir daquela carga. Ir a outro local, a mais de cem quilómetros, carregar bobines de papel para tipografia.
Depois, mais cento e tal quilómetros quase em sentido inverso, para acabar de carregar num entreposto logístico.
Estas cargas foram bastante rápidas, mas os percursos, sem serem demasiado lentos, implicaram muita precaução. Chovia e, com piso molhado, o camião vazio é um patim de gelo.
Mais pela tarde, já de regresso, era hora de ponta em Paris (para quem não saiba, é uma versão, tamanho gigantesco, dos nossos pacatos IC-19, 2ª Circular, ou VCI).
Resultado: descarga na segunda-feira. Alverca, Sintra, Odivelas. Nada mau, nada mau… Para quem podia descarregar em Leiria na sexta-feira à tarde…

… … …

Mas, quanto a este último parágrafo, já não me atrevo a fazer qualquer prognóstico. Senão, vejamos:

Este texto tem vindo a ser escrito ao longo de vários dias.
Quando o comecei, tinha em mente fazer uma narração das peripécias relacionadas com a avaria da roda e respectiva reparação. Acrescentaria algum comentário irónico sobre os imprevistos e sobre a atitude ‘forreta’ dos donos do camião, ou sobre a precipitação dos funcionários que não foram capazes de identificar com precisão quais as peças necessárias. E passaria a interessar-me por outro tema. Mas não é possível. A realidade encarrega-se de me abrir os olhos, sempre que cometo o deslize de prestar pouca atenção.
Esta manhã, bem cedinho, aí pelas cinco horas, levantei-me, disposto a partir para mais uma jornada, que me levaria até à zona de Vitória, País Basco.
Um estranho sossego envolvia todo o parque de estacionamento da área de serviço de Orléans. Nada de motores em funcionamento, prontos para arrancar, portas a bater, nada. Os únicos sons, meio abafados, provinham do trânsito da auto-estrada.
Então lembrei-me de que hoje é o 1º de Maio, feriado também aqui.
E em França, nos domingos e feriados, os veículos pesados de mercadorias não podem circular, salvo poucas excepções, como os que transportam produtos alimentares perecíveis, ou com alguma autorização especial, por motivos de força maior. O transporte que efectuo não se inclui nessas categorias. Só posso circular a partir da meia-noite, 23 horas pela hora portuguesa.
Já nem me apetece usar aquela expressão ‘é preciso ter azar’…
Eu queria ter um dia de descanso, sim, mas em casa. Aqui, sinto-me tão inútil e parado como o motor do camião.
Acho que já só vou descarregar na terça-feira. Mereço um fim-de-semana de dois dias, como toda a gente. E até tinha direito as dois!

… … …

Este último apontamento sugere-me uma reflexão, desta vez escrita, sobre o omnipresente protesto dos camionistas estrangeiros em França, em relação a esta proibição de circular.
É verdade que cada país da Comunidade Europeia tem o direito de regulamentar as actividades dentro do seu território, desde que isso não seja contra o ordenamento da própria Comunidade. Sendo esta uma situação possivelmente omissa em qualquer texto de Bruxelas, é fácil perceber que só é possível acatar as restrições. Infringir, significa pagar uma multa e parar na mesma. Continuar seria desobediência, que tem carácter mais grave.
Como fundamento para esta restrição, suponho que estejam questões relacionadas com a fluidez do tráfego, mais intenso nestas datas, pois não se vislumbram outras que pudessem incidir sobre os condutores estrangeiros (claro que os camiões franceses também estão abrangidos). Se se tratasse de uma forma encapotada de resolver um problema laboral interno, o caso mudaria de figura.
As autoridades francesas - claro! – estão-se completamente nas tintas para esta realidade indesmentível, que é a de que os condutores de fora não têm que estar sujeitos a cumprir, por indirecta obrigação, um feriado local (embora neste caso até seja feriado na maioria dos países do Ocidente).
Houve um tempo em que era permitido circular, quando de regresso aos países de origem. Mas os espertalhões abusavam, para fazer outros percursos. Em consequência, paga o justo pelo pecador.

… … …

Agora, um outro apontamento, este sobre a ‘nefasta’ influência dos camiões no tráfego.
Aparentemente, a existência de camiões circulando lentamente entope as estradas, não permitindo aos condutores dos ligeiros andar à vontade.
Aparentemente.
Na verdade, os camiões andam um pouco mais devagar e, por serem extremamente compridos, ocupam muito espaço e dificultam as ultrapassagens. Tudo isso é verdade.
Mas já alguém pensou – nesta época em que, felizmente, se aposta na diminuição de velocidade como forma de diminuir o risco e a gravidade dos acidentes – que os camiões são, por isso mesmo, agentes moderadores dessa tão apetecida quanto mortífera velocidade?

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Amargura (Homenagem à amizade)


Horas amargas, palavras doces, ilusões;
A tudo vou, sem um queixume, submeter
Escasso estro. (Pouco tenho que perder.)
Mas lá se me vão, em tal empresa, meus brasões…


À nobre Dama que fez tais proposições
Vou tentar, ainda assim, surpreender.
Não cuido sequer – nem podia – de parecer
Que poeta sou (nem escravo de paixões)


Tudo não passa d’ uma simples brincadeira,
Quase surgida como se fora por acaso.
Se acaso existe na vida, tal condição


Há-de dar-me, espero eu, dessa maneira
(Sem compromisso, nem espera, nem prazo)
Força, Coragem, Sorte e alguma Inspiração.


O "soneto" acima publicado foi, num outro blog, dedicado a 'amargura'.
Devido à existência de gente sem o mínimo sentido de educação, escrúpulos, consciência cívica (o que se quiser), também serviu de pretexto para ataques doentios de tarados que por aqui continuam.
Por causa desses ataques, a pessoa que publicava esse blog, um dos mais visitados desta comunidade, decidiu retirar-se.
Volta agora a publicar-se aqui, porque o que foi uma brincadeira, resultado de uma aposta, é agora uma homenagem.
Volta, se o entenderes, e quando quiseres.
Tens aqui um amigo.

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